sexta-feira, 3 de abril de 2020

Fim da rua

  Sim, aquela era a casa que eu mais amava, e a rua que eu adorava brincar na minha infância. Lembro de andar de bicicleta e brincar de pic-esconde com meus amigos. Subíamos nas árvores e corríamos pela floresta atrás de novas aventuras. Era tão bom... Mas passou tão rápido que nem percebi, e como eu queria voltar no tempo.
  Bem, mas como dizia a minha mãe, "querer não é poder". Eu aproveitei ao máximo, cresci, me formei, casei e tive meus filhos, um lindo casal de gêmeos idênticos. E o que passou a ser meu hobby preferido, era vê-los brincar e serem felizes assim como eu fui. Nessa mesma casa, nessa mesma rua. Nessa mesma floresta.
    Até que um dia eu tive que tomar uma atitude extrema, se eu bem quisesse ver meus filhos vivos. Não importando o preço que tivesse que pagar por isso. Ou a dor que tivesse que aguentar...
   Literalmente aquele inferno, começou na sala após um curto circuíto na parte elétrica do aquecedor. Eu e meu marido, estávamos colocando as crianças para dormir, e tudo aconteceu muito rápido. Pouco depois de as crianças dormirem, sentimos um cheiro forte de algo queimando. Achei que tivesse esquecido alguma coisa no fogo e desci para ver...
   E então a surpresa! Toda minha sala em chamas, o fogo se espalhando para a cozinha rápido de mais. Foram questões de segundo até a parte de baixo da casa começar a estourar que nem milho de pipoca. E eu só teria esses segundos para sair dali, antes que o fogo alcançasse fogão, geladeira, e os produtos de limpeza que guardava no armário.

   — Carlos! As crianças...

  Quando voltei para o quarto ele já estava com elas no braço, duas crianças de 4 anos não deveriam ser difíceis e pesadas para carregar. Mas na hora de um incêndio por exemplo, parecem chumbo.
   Os vizinhos começavam a se aproximar para ajudar. Outros só para filmar e gritar — o que não serviu de muita ajuda, convenhamos — só haviam saídas pela frente e no final da casa, nosso único modo de sair dali eram as janelas, mas como fazer isso com duas crianças que choravam e gritavam por estarem com medo e sem entender nada?
    Um de nossos vizinhos colocou uma escada que ia até a janela do quarto delas, Carlos desceu com nossa pequena, o calor estava ficando insuportável, tinha a sensação que iria derreter, literalmente, a qualquer momento. Mas minha prioridade era meus filhos.
    Levou apenas alguns segundos, intermináveis, para ele chegar lá em baixo. Coloquei meu filho nos braços e me apoiei para fora da janela, ao colocar o primeiro pé na escada, outra surpresa... O fogo chegou até o quarto.
   Meu marido se preparava para subir de volta para me ajudar...
    Só que não daria tempo. E eu ainda não entendia, por quê tão rápido? Eu gritei lá de cima a única frase que deu tempo.

  — Carlos, salve nosso filho. Eu te amo.

    Eu joguei nosso filho na direção dele, e a última coisa que me lembro foi de ouvir um estouro ensurdecedor, de ser puxada para dentro e minha pele derreter e queimar que nem cera, vagarosamente. Ouvia gritos, mas que logo foram sumindo, nem eu mesma conseguia me ouvir mais. Só queria que parasse, um lugar frio, água...
    É estranho ficar nessa casa assim, toda queimada, destruída, e sem vida. A casa aonde passei minha infância, e pensei que iria criar meus filhos.
    Me olho no espelho, e vejo um monstro, que atravessa paredes, e está todo deformado.
    Mas pelo menos entendi o que aconteceu, e tenho assuntos pendentes aqui. Fogo se espalha rapidamente, mas aquilo não foi normal, nossa instalação estava em dias, e a casa em ordem.
     Segundo as investigações, o incêndio foi criminoso e provocado por um maldito hacker que ferrou com minha instalação, mas a policia não soube explicar como o fogo se alastrou tão rápido, e nem quem me puxou já que estava apenas eu na casa, mesmo depois de controlado o incêndio o único corpo era o meu.
    E quanto a quem me puxou para dentro do quarto novamente? Esse foi um elemento surpresa, um antigo inquilino, anterior a meus pais, que logo também terá o que merece. Mas voltando ao hacker...
    Bom, ele não foi bom o suficiente para fazer seu trabalho direito, mas eu serei boa no meu. E eu sei que ele mora bem ali, no fim da rua.

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